Quer Que Eu Segure Sua Bolsa?

“Você comprou um cachecol azul. Achei bem bonito, combinou bastante.”
Qualquer dia, especificamente quando eu tiver coragem, prometo te revelar algumas coisas que penso sobre você. E eu sei tanto de você. Me prendi tão rapidamente e não é na mesma velocidade que quero te perder. Apesar de nunca ter te tido. Ainda.
Com uma precisão implacável, nos vemos todos os dias na mesma hora.
Saio de casa, estendo a toalha no varal e coloco meus amigos fones de ouvido. Religiosamente todas as manhãs, me pego reclamando do frio e da preguiça, contudo, logo esses sentimentos dão lugar a uma ansiedade estranha. Eu poderia traduzir a ansiedade de hoje, por exemplo, em algo como: “Hoje é sexta-feira, um dia mais descolado, acho que estará usando aquela blusinha branca com grafismos moderninhos! Sei o quanto adora!” Eu sei tanto sobre você, tanto que sei até que roupa provalvemente usará em determinados dias da semana. E sempre acerto. Hoje não foi diferente.
Absolutamente você não faz ideia, mas carrego lenços de papel comigo pra em uma oportunidade de você estar resfriada eu prontamente te oferecer ajuda, mas você é muito organizada e sempre carrega seus próprios lenços. Vivo na torcida que sua memória falhe. Quando está chateada, envia Mensagens de Texto para os amigos digitando numa velocidade surreal. Quando está feliz, cruza as penas e toca Bateria Imaginária em seu próprio corpo. (Em tempo: Você também tem amigos chamados Fones de Ouvido”).
No total, você possui 12 sapatilhas das mais diversas cores e modelos. Gosta de usar alguma de cor mais séria na segunda-feira, como se tentasse transmitir uma impressão de “seriedade e convicção”. Tolinha, sei bem como é.
Um dia desses atrás, pensei que seria a hora de falar com você. Eu lia Hutoz, romancista europeu, e notei que você tentava me acompanhar na leitura. A cada página por mim virada, era uma respiração de reprovação por sua parte. Comecei a ler mais devagar desde então.
Aprendi a odiar os fins de semana, responsáveis por quebrar nossa rotina. No domingo, sou o primeiro em casa a arrumar as roupas do tão esperado, pelo menos por mim, dia seguinte.
Fico um pouco aflito quando não está no lugar de sempre, daí no outro dia vem com uma expressão febril. Não gosto de te ver doente. Aqui do meu mundo eu passo meu dia te mandando energias do bem pra que se cure logo . É tão mais bonito te ver pra cima, alto astral, com sua meia fil 70 e a sua “Sandália do Dia”.
Sem querer e sem saber, você me dá uma razão diferente para os meus dias, ou pelo menos para os primeiros minutos de cada um deles. Me faz feliz saber que vou te encontrar em uma nova manhã, no mesmo banco, com a mesma forma de sentar, na mesma hora, no mesmo ônibus. E nem me importo dele ficar lotado e eu ter que segurar a bolsa de algúem. Mesmo sem nunca sequer ter falado com você, sentar ao lado e sentir como está seu humor já faz parte do meu dia a dia.
Quem sabe um dia eu te convenço que é melhor não dormir com a cabeça encostada no vidro. Quem sabe um dia descubro seu nome.

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