Tudo e Você?

É pra ser só mais uma ligação pra saber como foi o seu dia.
Mas nunca é. A gente sempre faz questão de prolongar todos os assuntos.
É automático! Nem que tenhamos conversado durante todo o dia, a noite, na última conversa antes de dormir, relembramos alguns momentos de horas atrás e lembramos de coisas novas pra contar.
A primeira coisa que faço antes de te ligar é procurar uma posição confortável no sofá. Arrasto pra perto de mim um puff que gosto muito – aquele que adora também -, repouso meus pés, quando faz frio pego um edredon, no calor não faço nada.
Durante a conversa alguns assuntos polêmicos surgem, como o debate sobre “Qual Cor do Esmalte Você Deve Passar Ainda Hoje”, mas são coisas que com muita destreza nos ultrapassamos. Conversamos também sobre outras amenidades como “Estou Sem Dinheiro Mas Estou Louco Pra Viajar, Você Fecharia Fazer Uma Loucura Comigo?” e seguimos um ouvindo o outro. Quando a conversa chega numa ponto desses, eu já estou de ponta-cabeça no sofá, com os pés na parede. O controle remoto da TV já foi para “O Mundo dos Controles Remotos de TV”.
Ás vezes me bate uma fome. Vou até a cozinha preparar algo enquanto revela sua fúria com o seu chefe. Respondo com “uhum” confirmando que estou ouvindo tudo. Não falo mais nenhuma palavra por simplesmente estar impossibilitado de dizer algo devido as bolachas que eventualmente como enquanto desabafa.
Vou até o banheiro, faço xixi. Lavo e seco as mãos, saio do banheiro. Tudo isso com o telefone. Muito provavelmente você também está mudando de posição freneticamente, de repente enroscada com teu edredon, ou se olhando no espelho fazendo caretas ao tentar estourar uma espinha danada.
Chega uma hora que as orelhas começam a arder mas não o suficiente pra diminuir nossa vontade de conversar com o outro, de nos certificarmos que está tudo bem, de fazermos planos pro fim de semana, de até brigarmos ás vezes. Mas sempre nos falamos.
Você não faz ideia de como me faz bem te ouvir falar qualquer coisa. Gosto da ideia de ser o escolhido pras suas revelações, ou até mesmo para sua queixa sobre o metrô lotado de todos os dias. Gosto de saber que você conta comigo. E é meio óbvio que sinto o mesmo por você, né? De maneira alguma eu passaria fáceis 2 horas no telefone com alguém que não fizesse sentido pra mim.
Tem dias que eu passo as horas ansioso em chegar a noite e eu finalmente poder saber como foi teu dia. Gosto de ser quem te recomenda comer melhor, quem te lembra do remédio de 8 em 8 horas.
No final, o que menos vai me importar é se terei dinheiro pra pagar a fatura do telefone no fim do mês. Com um esforço aqui, outro ali, e um corte de leve na quantidade de filmes que a gente aluga, eu consigo pagar.

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