Meus Dentes Estão Sujos?

Nós gostamos de filas.
As filas, em nossa visão, nos obrigam a ficarmos mais tempo juntos. Ou seja: quanto mais demorar pra fila andar, mais tempo a gente curte a nós mesmos.
Fila de ônibus é clássica. Quando um chega primeiro, guarda lugar pro outro. As outras pessoas não gostam muito dessa tática, mas logo entendem quando a gente diz um “Obrigado!”. No fundo, o ser humano é gentil.
Eu sempre elegante, te deixo entrar na frente e te vejo erguendo a calça para que o teu… bom, como eu vou dizer… que situação estranha, bom, te vejo erguendo a calça para que o teu “bumbum” não fique à mostra. Não é bem ele, mas enfim.
Eu rio da tua precaução, porque você esquece que atrás de você sou eu, que, automaticamente me aproximo de modo a não deixar ninguém olhar suas costas e todo o resto.
Passamos pela catraca. Sempre cumprimento o cobrador e aproveito para acompanhar os olhos dele que, achando que me engana, sei que estão te olhando depois de passar pela catraca. Alguns respeitam e não fazem isso, já outros não estão nem aí e nesse caso depois do meu cumprimento, faço questão de me despedir esbravejando um sonoro e grave “OBRIGADO!” intimando-o com o meus olhos.
Você nunca percebe essas coisas, enquanto isso acontece você está lá no fundo do ônibus, de pé, me gesticulando sobre uma questão implacável: “Onde vamos sentar?”, isso quando você não decide sem mim enquanto ainda travo a batalha de cumprimentos com o cobrador-cara-de-capu, daí quando percebo já está lindamente sentada.

Você sempre na janela e eu no corredor.

A partir daí o ônibus cheio de solavancos se transforma no sofá da sua ou da minha casa. A gente literalmente se sente em casa. Ás vezes abrimos um salgadinho, outras você pega o caderno pra me mostrar alguma lição da faculdade.
Quando o ônibus começa a lotar, começo a ficar naturalmente espremido no banco. De um lado você, que zelo pelo teu máximo de conforto, de outro, sou eu levando bolsadas/cadernadas/chutes de crianças de colo/chutes de barrigas, digo, de grávidas, digo, chutes de crianças que ainda não nasceram/barrigadas de mulheres não-magras ou semi-grávidas, eu tenho um sério problema em saber quando é gravidez ou excesso de peso, isso quando não cai salgadinho alheio em mim, no meu cabelo e etc. É uma festa! Não, não é.
Sempre ajudo as pessoas que estão no corredor. Pergunto se posso segurar seus pertences pra facilitar a viagem, mas de maneira alguma cedo meu lugar pra outra pessoa ficar ao seu lado. Aliás, me perdoe Nossa Senhora Das Grávidas, quando esta condição é óbvia, cedo o lugar, eis a exceção. Não é uma situação que o ciúmes vem me visitar mesmo, então tudo bem.
Quando aceitam ajuda, pego os objetos e dou as costas me virando pra você, quando não aceitam faço a mesma coisa. Definida essa ajuda ou não, voltamos em definitivo pra “sala da nossa casa.”
Tem vezes que tento colocar meu braço em cima do teu ombro, mas nem sempre é confortável, desisto; tem vezes que me faço de cama pra você se apoiar em meu peito e ficarmos juntos olhando a rua; tem vezes que eu quero deitar no teu colo, mas isso você nunca deixa. Como se fôssemos crianças, brincamos de inércia durante as curvas do ônibus.
Quando o salgadinho esvazia, óbviamente jogamos no lixo. Não! Errado! O saquinho fica comigo, coloco ao lado da minha mochila enquanto você, toda engraçadona, limpa suas mãos salgadas em minha calça e depois me olha perguntando: “Meus Dentes Estão Sujos?” sabendo que nunca estão. Ok, teve uma vez que sobrou um pouco de salsinha e de propósito não te avisei. Foi o dia que você mais estranhou eu rir tanto de sua piadas.

“A gente desce no próximo!”.

Devolvo os objetos pra pessoa que está no corredor. Começa então o processo de “vamos descer”. Verificamos as mochilas e nossos pertences, peço licença pra galera que, sempre gentil e também sedentos por bancos disponíveis, nos dão espaço e então nos aproximamos da porta.
Eventualmente a gente tem que gritar um “VAI DESCEEEER!”, mas só quando o motorista esquece do detalhe de abrir a porta quando chega no ponto.

Sei lá, a gente tem uns gostos estranhos. Gostamos de filas e até de ônibus, que doidos! A gente sabe bem viver aquela ideia de “me sinto em casa em qualquer lugar”. Não importa onde, em qual condição, se estamos juntos é o que basta.

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4 respostas em “Meus Dentes Estão Sujos?

  1. Ah que lindo, isso me faz viajar no tempo e lembrar essa mesma situação descrevida, vivida diariamente em momentos únicos, em que eu realmente era feliz! Não tem como não me identificar com cada post e não me emocionar ao ler e lembrar !!!

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