A Hora Do Cabelo Tijelinha Se Dar Bem

Eu nunca fui bom em conhecer pessoas novas.
Minha auto-estima sempre foi baixa demais pra eu me considerar interessante a ponto de engatar alguma conversa com que não conheço.
Lembro que desde pequeno eu ficava mais na minha enquanto meus amigos, já bem soltinhos, paqueravam as meninas no colégio, já eu, eu ficava quietinho ajustando meu óculos e a minha franja tijelinha que era de praxe usar naquela época.
Mas a gente cresce, né? Felizmente a gente cresce e com isso podemos mudar muitas coisas na nossa vida.

Eu cresci, mas continuo o mesmo envergonhado.

Hoje não está sendo muito diferente de outro dia qualquer.
Gosto dessa cafeteria, compro revistas legais na banca na esquina anterior e venho pra cá ler. Sei lá, eu me divirto até que bem sozinho. Com esse meu costume percebi que sei fazer amizades com bebês. Todos riem quando eu os olho e faço alguma careta. Bom, eles também riem quando eu não faço careta. É, pensando bem, eu não tinha pensado nesse sentido.

O que importa é que esse lugar é legal. Vem pessoas descoladas, casais, Sozinhos iguais a mim, enfim, gente de toda espécie.

Tudo estava igual até que me entra uma garota de cachecol.
Meio desastrada com livros, ela tentava manter os óculos fixos. Me olhou com cara de vergonha, e eu prontamente abaixei a cabeça retribuindo toda a vergonha.
Ela pegou café e parecia procurar um lugar pra sentar.
Eu comecei a suar.
Não tinha certeza se poderia sugerir que sentasse comigo, digo… que sentasse no meu lugar, mas algo me dizia que eu poderia tentar algo, pelo menos ela não seria rude comigo ao ser delicado com ela.

“Oi, está procurando lugar pra sentar né? Senta aqui comig… digo, pode se sentar aqui, eu estou de saída!”

Rojões se estouravam dentro da minha barriga nessa hora, consegui, meio derrapando, falar algo interessante talvez pela primeira vez na minha vida. Espero que ela tenha entendido que eu estava a xavecando, esperando que ela aceite me beijar. Não é assim que as coisas são hoje em dia? Meus amigos dizem que não precisa “dar muita ideia”, é só duas palavrinhas e gol. E eu até que falei bastante.

Ela se assustou com a minha abordagem e olhando pros livros que carregava mais o café quente, mais o cachecol caindo do pescoço, não hesitou em aceitar meu convite e acrescentou:

“Poxa, quanta gentileza, vou aceitar, mas você pode ficar aí também, não precisa ir embora, a não ser que esteja com alguém ou esperando alguém, não quero ser inconveniente”.

Mal sabia a garota do cachecol que eu não sabia o que era esperar alguém e esse alguém chegar.

“Hmm, então ok, vou ficar, obrigado!”

Aceitei com inteligência e sentamos.

Enquanto ela se explicava e agradecia novamente pelo assento, comecei a pensar que eu estava conversando com uma estranha, sobre assuntos aleatórios, e que essa pessoa estranha era uma garota que aliás era muito bonita. Era difícil eu manter a concentração no que ela falava porque eu estava realmente feliz em viver aquele momento.

A conversa começou sobre um assento e chegou até nos alpes chilenos.

A noite havia chegado, o frio apertado e estávamos lá ainda, semi-bêbados de tantos cafés conversando sobre tudo. Minha revista havia se tornado o forro da mesa.

Eu tinha perdido a vontade de beijá-la da maneira que meus amigos dizem ser o certo a se fazer. Eu queria que ela falasse mais, que falasse das experiências e coisas que viveu. Estávamos tendo uma conversa tão gostosa que eu seria capaz de decorar todas a falas pra poder repetir no espelho quando chegar em casa. Como se eu pudesse reviver aquele momento, sabe?

Fomos avisados pelos atendentes que a lanchonete ia fechar.
Ela disse que ficaria no metrô e eu a acompanhei.
Trocamos números de telefones e enquanto ela anotava o meu no celular dela, dei mais uma volta em seu cachecol como se a alertasse do frio que fazia. Ela levantou a cabeça lentamente e sorriu pra mim, eu retribuí.

Um longo e quente abraço, beijo com vento no rosto e aceno ao darmos as costas.

Até que dois tropeços aconteceram.
Nós dois tropeçamos no mesmo momento da mesma maneira ao darmos tchau.
Rimos, com a mesma vergonha da hora que nos vimos na sua entrada desastrosa e nos despedimos.

Fui embora olhando para os arranha-céus da avenida e pensando sobre como fiz o certo em ficar na minha nos tempos de colégio, em não me desesperar em ter garotas como meus amigos tinham, em não forçar amizades, em não querer ser o popular.

No fundo, eu só queria alguém que risse quando eu tropeçasse e não alguém que me humilhasse. E conheci mais, conheci uma pessoa que também tropeça comigo, não tenho do que reclamar, pra quem tinha algumas revistas como companhia, até que as coisas mudaram.

Masculinamente, devo confessar que eu gostaria de ter beijado a garota do cachecol, ahh eu gostaria… Me veria perfeitamente numa cena de filme. E ela parecia ter lábios mais macios que as nuvens. Encantador.

Mas tudo bem, sem problemas, sem desespero, ela tropeça comigo e isso já é o bastante, e afinal, combinamos de sair mais vezes também, a começar com amanhã outra vez.

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2 respostas em “A Hora Do Cabelo Tijelinha Se Dar Bem

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