Que Você Seja Feliz, Desde Que Seja Longe De Mim

Me preocupei em hoje usar uma das roupas que você gosta tanto. Inclusive aquela camiseta que me custou os olhos da cara e que ainda estou pagando a segunda parcela. Espero que perceba.
Hoje está fazendo um dia bem gostoso: nem frio demais, nem calor demais, dá pra gente usar camiseta e uma blusa leve se for o caso. Só espero que não chova.
Saí de casa tão ansioso que esqueci de passar perfume, tive que descer do ônibus e voltar em casa só pra passar o bendito perfume. Você me merece cheiroso, né poxa? Minha mãe enlouquece quando volto pra casa numa situações dessas. Nem quero lembrar tudo que ela me disse quando eu voltei só pra trocar de camiseta porque eu não havia gostado da escolhida na ocasião.

Já a caminho de te encontrar, optei por ouvir algumas músicas mais calmas. Geralmente eu coloco player na ordem aleatória, mas hoje quis ser específico. A trilha foi uma banda nova de folk que descobri a duas semanas. Lembro que você não havia gostado quando te mostrei, achou “moderninha demais” e hoje se tornou até toque do seu celular, haha, só você né?

O combinado era de te encontrar as 20:30 na saída do teu curso. A viagem de ônibus estava tão longa que ouvi duas vezes o disco da banda lá.
Quando finalmente cheguei, bem adiantado aliás, eram umas 19:25h, fiquei fazendo hora ali naquela lanchonete que vende um dos melhores rizzoles da cidade. Não é saudável, nem muito pouco romântico, mas a academia e um bala de menta resolve esses detalhes.

Tenho mania de observar as pessoas. De dentro da lanchonete fiquei reparando as pessoas, basicamente, “vivendo”. Casais, crianças, adolescentes, jovens, idosos, cachorros, é tanta coisa pra se observar. E eu sou desses que em meio a essa oferta de opções ainda encontro tempo pra reparar se as estrelas nos visitaram. No entanto, notei que o céu estava repleto de nuvens o que significava chuva á vista.

8:15h.

Lá vinha você. Surpreendentemente adiantada, saindo do curso, cercada de amigos. Corri pra pagar meu rizzole, àquela hora já havia comido uns 4, limpei minha boca farinhenta e me aproximei da saída pra te encontrar. Eu também tenho a mania de sempre te fazer uma surpresinha, ora flores, ora doces, sempre penso em algo. Hoje, eu havia comprado o teu ingresso pro show que tanto quer ir, e de quebra, comprei um pra mim automaticamente avisando que você teria minha companhia.
A ideia era: Me esconder entre os carros, fazer gesto pros seus amigos não me denunciarem e chegar em você por trás mostrando apenas os ingressos.

Então, me escondi.

Calculando o momento certo, vi que seus amigos começavam a se despedir de você.

Menos um.

Até aí tudo bem, você já tinha me contado dele, que era super gente boa, inclusive o conheci e confirmei sua informação.

20:23h.

Eu escondido, você conversando com seu amigo.
Mas em uma fração de segundos que desviei o olhar pra avenida e voltei à olhar você…

Não foi com um beijo no rosto que vocês se despediram.
Não foi.

Naquele momento eu comecei a suar e meu coração disparou. Eu não estava entendendo nada, mas preferi ficar ali observando o que estava acontecendo.

Você estava beijando outro.

Olhava entre os vidros dos carros, era noite, mal daria pra você me perceber, foi quando comecei a chorar com o rosto encostado no vidro. Minhas lágrimas lavaram o vidro daquele lado e escorriam lentamente. Eu me desesperei mas não conseguia tomar uma atitude.

Fim do beijo. Troca de selinhos e carinhos.

Enxugando o rosto, vi que você estava com pressa, certamente porque eu estaria chegando já.

Você sabia que eu ia te buscar, mas segundos antes, beijou outro.

Angustiado, levantei, sequei o choro com a camiseta – aquela camiseta – e fui lentamente de encontro a você. A vocês.
Teu amigo percebeu minha aproximação e ficou pálido. Você sem entender a expressão dele, virou os olhos na minha direção pra ver o que acontecia.

Voltei a chorar. Dessa vez olhando nos teus olhos.

Você largou os cadernos no chão e veio em direção a mim com as mãos na cabeça.

“Calma, calma, eu posso explicar, eu posso explicar!” gritava enquanto os outros estudantes saíam do curso.

Tudo que eu fiz foi desviar de você e sair correndo em disparada aos prantos sem olhar pra trás. A tempestade havia começado e em um dado momento eu  já não sabia mais o que era lágrima e o que era chuva.

Mas isso não foi pior do que pensar que eu não sabia quem era você.

Corri o mais rápido que eu pude, com o teu ingresso na mão, minha roupa preferida por você, chorando, sempre correndo, sem olhar pra trás, sem olhar você.
Exausto, sentei num banco de ponto de ônibus, até que eu ouvi uma voz:

“Ela não te merece, garoto. Não merece o que você sente, nem teus esforços, ela precisa sofrer pra aprender a amar. Não se preocupe e se quiser, eu divido meu leite quente que acabei de ganhar ali do bar. Você tomou chuva, capaz que pegue resfriado!”

Era um mendigo.

Agradeci a gentileza com um gesto, levantei comecei a caminhar sob a chuva torrencial.

Naquele dia eu fui a pé até a minha casa. Demorei cerca de 4horas andando, cheguei 3hs da manhã e incrivelmente, eu senti um alívio muito grande. Um alívio que pra mim serviu de lição. Lição de que as pessoas não são iguais, de que são capazes de fazer as piores coisas, independente do teu nível de relação com ela. Pensei na lição de que ninguém vai pensar exatamente igual a mim, ninguém vai se importar tanto quanto eu, até porque, só existe um exemplar de mim.

Molhado, deitei no sofá e por ali mesmo dormi.

Voltei no dia seguinte no mesmo banco de ponto de ônibus pra procurar o mendigo e pra ele dei: o ingresso do show que era pra você, uma jarra de chocolate quente e falei ao me despedir enquanto ela não acreditava no que eu estava fazendo:

“Eu não preciso saber seu nome e você também não precisa saber pra que serve esse papel aí, que é um ingresso aliás. Aceite minha bebida também e aceite o meu mais sincero ‘eu te amo’, o teu nome eu deixo subentendido no “te”. Do contrário de uma outra pessoa, você me provou que é possível sim se colocar no lugar de outra pessoa pra entender como ela se sentiria sob as nossas atitudes, então nada mais justo você sim merecer o meu ‘te amo’ e até um dia.”

O ingresso do teu show que você tanto queria havia se tornado aviãozinho de papel daquele mendigo que mudou a minha vida.

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3 respostas em “Que Você Seja Feliz, Desde Que Seja Longe De Mim

  1. Marcio, fala sério!
    Me deu peninha dele chorando vendo a menina beijar outro.
    Ele tinha comprado os ingressos pra presentear ela,que sacanagem!
    Hahhahá,eu vivo as emoções que o texto transmite!!! Fiquei com raiva dessa garota!!!
    Bju grande!

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