Uma Passagem Só De Ida, Por Favor

Tem dias que a gente nem prefere levantar pra encarar essa cidade. A vontade é de continuar na cama e emendar um sono atrás do outro, num looping infinito. Especialmente nos dias em que acordar significa se aproximar da dor. Bem como todas as outras dores que fazem parte da nossa vida e coração, a dor da saudade machuca e faz chorar.

Mesmo com a grande vontade de ficar, a gente levanta da cama e partimos pra viver um novo dia. Viver a rotina, ver algumas pessoas, trocar meia dúzia de palavras com alguém interessante. Os dias são mais ou menos iguais.
Em alguns momentos desse nosso dia parece que todas as forças vão embora. E esses momentos sempre aparecem sem avisar. Não que a gente goste da fraqueza, mas às vezes a gente se vê refém dela.

Na vida de um coração solitário, um simples caminhar qualquer pelas ruas pode machucar mais que uma faca no peito. Os olhos intermediam o encontro em o espectador e o momento que ele deseja viver. Visão turva de alguns abraços alheios aqui ou acolá ou de uma porção de beijos rápidos enquanto o semáforo não abre.

Paisagens ficam mais bonitas quando se tem alguém pra compartilhar.

Tem gente que aponta o dedo na nossa cara e diz: “Você não está se esforçando pra superar!”, tem também aquelas pessoas que dizem: “Ainda está nessas?”. Não vale o nosso esforço tentar explicar. Cabe a nós a felicidade por ver que quem nos diz isso vive uma fase completamente ao contrário da nossa, sendo assim, se torna incapaz de ter alguma razão quando os debates giram em torno dos caprichos do coração.

Não vale a pena tentar explicar o que nem a gente consegue entender.

Vão dizer que você não tenta o suficiente, vão dizer que você não merece isso, vão dizer incontáveis verdades mas ninguém vai te dizer a verdade que só você sabe qual é. Não é problema assumir a saudade. Feliz é aquele que deixa escorrer a lágrima.
E é tão terrível, eu sei, quando a gente não encontra saída, quando a gente não consegue parar de seguir os mesmos passos já passados ou quando a gente não consegue pensar em nada legal que não tenha a companhia ausente de quem só-nós-sabemos-quem. Machuca, sabe?

Machuca mesmo, dói e faz chorar.
E o querer se torna tão vago e fulgás quanto uma leve brisa numa noite de outono qualquer.
Fecha o zíper do casaco, esfrega a mão uma na outra querendo na verdade ter uma terceira para esfregar.
Dias frios cerram nossos olhos e se há um lado bom nisso, talvez seja a capacidade que os dias frios possuem de cessar a lágrima. Não dá tanta vontade de chorar no frio da noite. Mas também, veja bem, que diferença faz não conseguir chorar na rua se uma ida ao supermercado se faz uma lembrança destruidora e traz mais dor que qualquer outra coisa?

As lembranças são a nossa sombra nos dias sem sol.

“Sai daqui, eu não quero te ver, pelo amor de Deus, me deixa em paz!” Há uma voz que ecoa palavras tipo essas, né? A gente tenta, a gente sempre tenta.
É.
E só sabe bem disso aquele que já fez e ainda faz sua parte para uma história se tornar pra sempre.
“Sou muito insensível, me tornei uma pedra, raramente fico mal” Que dó. Esfregue uma pedra na outra e veja se não se quebrarão. Pedras quebram, pedras sentem dor. Pedras são tocadas pelas ondas do mar, pedras são beijadas por pássaros numa primavera particular, pedras, sempre pedras, todas no caminho, uma por uma, a gente passa por cima, a gente pisa, a gente quebra uma ou outra, tchau pedras, oi pedras, pedras, insensível, “desculpa, eu não queria fazer isso, sou uma pedra.” Ahh, que conversa de louco! Eu poderia ficar horas falando de como as pedras são tão sensíveis quanto quem tem coração. Comparação idiota de gente idiota e vazia! “Clap, clap, clap” Dá pra gente ouvir a salva de palmas de dentro do nosso corpo quando a gente faz ou fala alguma coisa, digamos, “certa”.

“Ei, não pense que me esqueceu, estou aqui no calor de um abraço só”. A saudade volta, severamente ela volta.
Um abraço só.
Um abraço, só.
Bom é que a saudade volta, mas, bem, que diferença fará agora revirar minha cabeça? Tchau, faz muito frio hoje, não quero saber de nada.

Só se você está bem.

Quero saber se você está realmente bem, sem mim.

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