Sobre Ter o Que Contar, Mas Não Contar Com Ninguém

O mundo pesa muito nas nossas costas.
É tanta pressão nos cercando todos os dias que a vontade mais forte que às vezes vem à cabeça é de jogar toda essa merda pro alto e largar tudo e todos.
São dedos apontados na nossa cara acompanhados de uma cobrança de que devemos ser melhores, de que devemos ganhar mais dinheiro, de que devemos ter o sorriso do comercial de creme dental, de que devemos vestir a moda ao invés de roupas confortáveis, de que precisamos ter os melhores aparelhos simplesmente pra mostrar que temos, de que devemos, de que devemos, de que devemos… E ninguém para, senta ao nosso lado e pergunta: “Tá tudo bem com você? Conta o que está acontecendo” ou “Como você está bem, gostei da sua roupa! É bom te ver feliz!”.

Tem pessoas que seguem o lema do “minha vida vai bem, espero que a sua também”.

Se o motivo da dor for carência, nada como uma dose de chacota com uma pitada de “nos olhos do outros é refresco” pra resolver.
Pelo menos é assim que agem as pessoas que possuem esgoto e não sangue correndo nas veias.
Já se a dor for a falta de reconhecimento ou um desânimo com o calendário sem novidade, é de se esperar o discurso de que “tudo tem sua hora”. É como dizer que para um bolo ficar pronto é necessário ir ao forno. Disso, todos sabemos.

Apesar de reais, tem vezes que o silêncio pode ajudar mais que os clichês.

Voltando à cobrança. Esse nosso mundo é mais feito pelo que parece ser do que pelo que realmente é. Você pode até não ser bem sucedido, mas tem que aparentar, e para tal, vale até comprar um carro parcelado em 434345354x ou o celular mais moderno só pra não se sentir excluído diante das pessoas que, aparentemente, são felizes e “atualizadas”.

Pra quê ser, se podemos aparentar?

Pra quê sentir, se podemos omitir?

Pra quê chorar se podemos postar “hahaha”?
Pra gente mostrar como somos fortes e gritar pro mundo que a nossa vida é legal e que as coisas sempre dão certo. É por aí. A escolha é nossa.
Não é nada mais que uma gigante, pesada e agressiva ilusão.

Em contrapartida, tem as pessoas que fazem de uma unha quebrada motivo para UTI. Já dizia a música “sofrer para despertar audiência”. Gente que prefere gritar pro mundo o quanto a vida não está boa do que fazer alguma coisa para mudar tudo.

Essa merda toda cansa à qualquer um que tenha coração.

É tanto sentimento que a gente se afoga sozinho.

Temos que fazer parte, temos que fazer sentido, temos que nos destacar, temos que nos superar, temos que ultrapassar, temos que ganhar tempo, temos, temos e temos. Eu temo é pelo que podemos nos tornar. Temos que fazer tanta coisa que esquecemos de fazer o que mais sabemos: ser nós mesmos. Ser eu, ser você, sermos nós. Recheados de defeitos e roupas nem sempre de marca, com gostos populares na culinária e atual domínio em uma só língua. Ser nós mesmos é admitir que gostamos da música que todos fazem piada, é não ter vergonha de não saber lidar direito em uma mesa com tantos talheres, pratos, entradas, petiscos e o escambal. Só a gente sabe do que a gente precisa e em tudo que precisamos melhorar, afinal, seja a dor ou a felicidade, quem viverá cada uma delas seremos nós mesmos, sozinhos, sempre e pra sempre. Ser o que de fato somos não nos faz pior que ninguém que saiba ser além.

As lições são as mesmas para todas as pessoas, o que muda é o nosso ano na escola.

Sobre “só a gente saber do que precisamos”, é claro que contamos e muito com a ajuda das pessoas que gostamos. No assunto em questão, no entanto, digo sobre eu, sobre você, sobre nós, sobre a gente, momentos antes de colocar a cabeça no travesseiro. Ali, naquele momento, no fundo nós sabemos, nunca terá ninguém pra enxugar a nossa última lágrima, tão menos terá alguém pra assistir o nosso mais bonito e sincero sorriso celebrando o dia feliz que vivemos.

Na viagem dos sentimentos, as pessoas são as passagens para os eternos destinos.

Embora grande demais, a gente coloca o mundo inteiro nas costas, e pra completar, as pessoas são egoístas demais pra ajudar a gente à carregar, ou são prestativas demais a ponto de quererem o mundo só pra elas.

Ninguém nunca vai entender como é difícil esquecer um amor que doeu, tão menos como ainda dói ver a foto que já fez sorrir ou como corta o peito sentir o cheiro que já fez suspirar. Ninguém vai entender como a tua página pesa pra virar, ninguém vai entender as coisas que a sua cabeça solitária pensa. E isso não é problema, isso é verdade, uma verdade cruel, mas ainda assim verdade, ainda assim melhor que qualquer vã esperança. Talvez seja a deixa da vida para que arregacemos as mangas.

Pode parecer um egocentrismo barato, mas se a gente não encontrar as respostas dentro da gente, ninguém vai chegar na porta da nossa e dizer: “Oi, sei como resolver os problemas da sua vida!”, ainda mais se tratando de um mundo onde tudo que as pessoas mais querem é pisar em problemas ao invés de resolverem. É uma defesa ingênua pensar que o fim de semana frenético te alivia a tensão da segunda-feira à seguir. Obviamente, não é justo que sejamos reféns destes mesmos problemas, o que acontece é que não podemos viver como se eles não existissem.

Problemas não resolvidos são como machucados não remediados.
As cicatrizes não aliviam o peso do mundo mas dão mais força pra gente suportar.

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2 respostas em “Sobre Ter o Que Contar, Mas Não Contar Com Ninguém

  1. É exatamente o que acontece, algumas pessoas preferem desviar o olhar dos problemas e fingir que está tudo bem. Como você mesmo disse: Problemas não resolvidos são como machucados não remediados.

    Adorei o texto!

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