Afinal, Quando Um Não Quer Dois Não Brigam, Né?

Eles estavam nervosos.
Um não conseguia entender o outro, e pior, um não fazia questão de entender o outro.
Ela falava que não aguentava mais tanto ciúmes e ele reclamava que não aguentava mais ela o controlando tanto, isto é, ambos reclamavam das mesmas coisas de formas diferentes, mas só eles não enxergavam.

“Lembra do dia que você falou que ia sair com os amigos, aí te liguei, e quem estava lá? Aquela vadia que eu odeio, justo ela, a pessoa que eu mais odeio nesse mundo! Você mentiu pra mim, você ia me esconder e não ia falar nada me fazendo de trouxa!”

“Como é que você pode ter tanta certeza que eu não ia falar nada? Você nem me deixou explicar! Você não parava de falar! Gritava, me xingava, queria falar com a outra lá, parecia uma louca, desesperada!
 E mais, o que você me diz do dia que eu fui te pegar depois do cinema com as suas amigas e tinha um monte de cara que eu nem sei quem são? Aí você, toda fofa, distribuía beijos e risadas pra todo mundo, querendo ser a mais simpática!”

“Como você pode ser tão ridículo? Muito adulto então da sua parte falar aquele monte de coisa na frente das minhas amigas! Eu fui muito burra em oferecer carona pra elas e acabar passando vergonha com o seu descontrole!”

Eles reclamavam da mesma coisa, e o pior de tudo, em nenhum momento um tentava explicar ao outro o que aconteceu. Nenhum dos dois pensaram em acertar as coisas, do contrário, optaram por revidar com outro exemplo de uma tal “raiva” que passaram. É uma cegueira tão grande onde só os dois saem perdendo. Mas a vontade de ser superior é maior, a vontade de esfregar na cara um do outro quem tem mais razão é muito maior.

Não há espaço para perdão onde só se busca a razão.

Pareciam dois doentes! Abaixavam cada vez mais o nível do diálogo, não conseguiam se entender em uma só palavra, afinal, o objetivo era denegrir um ao outro, era agredir de uma maneira que marcasse! Era fazer estrago, era ao invés de expor o próprio lado fazendo com que o outro se colocasse no lugar pensando a respeito, tentavam obrigar um ao outro a aceitar que um estava mais errado que o outro.

Aceitar a imperfeição é o atalho para a teórica perfeição.

“Olha aqui, na boa mesmo, 
Eu não tenho mais paciência para esses escândalos! 
A gente estava aqui numa boa até surgir esse assunto e voltar tudo de novo! Você não se importou comigo e nem adianta falar que estou enganada porque sei o que estou falando!!!”

“Você tem problema, porque não é possível!

Perde a linha falando esse monte de coisa como se fosse toda perfeitinha, como se eu fosse idiota e não lembrasse das coisas que você fez! Não vem apontando esse dedo pra mim, porque você não é nenhuma santa!”

E eles continuavam.
O objetivo ali estava claro: alguém tinha que ser vencedor e não havia espaço para dois vencedores. Era uma disputa assassina pelo poder da verdade absoluta, pelo argumento mais convincente! E o louco é que nem sabem como começou tudo. Sem contar que se só de voltar nesse assunto a briga é tão grande, é sinal que não se resolveram nunca. Aparentemente, para os dois, os problemas nunca são resolvidos, só são deixados de lado.
Naquela altura, pouco importava se as coisas ficariam bem, o negócio é que alguém ali tinha que sair ganhando e alguém perdendo. De um jeito ou de outro.

“Olha o estado que a gente tá, isso não é justo…”
“E você acha que estou feliz com tudo isso?”

Começaram a chorar separadamente.

“Eu não acho que isso deve continuar assim…”
“Tudo que eu mais quero é dar um fim nisso…”

Então me vi com a mochila caindo em cima deles sem querer tamanho o aperto e rapidamente me desculpei! Contudo, se eu soubesse que o meu jeito atrapalhado rendesse uma solução para aquela situação eu teria forçado isso antes…
Eles acabaram se tocando e se encostando as mãos, logo, dando-as, em seguida se abraçando…

“Desculpa… chega disso, por favor”
“Eu que peço desculpas, não merecemos isso!”

Era minha hora de descer. Dei sinal e desci pensando neles dois.
Ajeitei minha mochila e caminhei pensando que só uma coisa resolveria o relacionamento daquele casal: humildade. Humildade de aceitar que erra, de pedir desculpas. Há também a importância em deixar o outro falar, em se colocar no lugar, em pensar como seria se fosse com os papeis invertidos… Tanta briga e tanta discussão porque alguém não deixou o outro explicar, e esse outro não deixou o outro explicar, que não se explicaram, não se entenderam, brigaram e acabaram chorando. E mesmo depois de aparentemente findada toda a discussão, eles ainda não conseguiam aceitar e perdoar os erros um do outro, não pelo bem de alguém individualmente, mas pelo bem dos dois, pela felicidade que estão construindo. Por tudo. Eles ocupavam o mesmo lugar de vítima ao invés do mesmo da felicidade.

Acontece.
Dei play na música em que mais gosto em homenagem aos dois.
Há pessoas que se amam mas não gostam de se amar.

#CURTA: http://www.facebook.com/umtravesseiroparadois <3

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