A Gente Nunca Vai Se Esquecer

A gente nunca deixa alguém 100%.
Tipo, ninguém nunca sai da vida de ninguém por completo.
Aí depende da gente julgar até que ponto isso é bom e ruim. Um lado bom é que as lembranças e lições que vamos levar pra sempre são motivos pra gente ser melhor todos dias, não por ninguém muito menos pelo passado, mas só pela gente. Um lado ruim é que a gente não pode viver no sentimento de “você nunca vai me esquecer” ou “eu nunca vou te esquecer”. As coisas simplesmente acontecem e o tempo é deliciosamente incontrolável.

Não é problema ter uma música especial pra viver por dois.

Tudo bem também já fazer aqueles planos ansiosos, com nomes dos filhos e lugar onde morar. Tudo isso faz parte e vamos repetir enquanto estivermos vivos. Planejar não significa realizar. É importante e é tão gostoso manter o clima de compartilhar sonhos e vontades. É incrível estar com alguém que completa as coisas que a gente vive.

Não é nada fácil e indolor gostar de alguém.
Mas a gente gosta mesmo é do difícil, né?
Se o amor fosse premeditado talvez a gente não valorizaria tanto. Todos valorizamos, o que muda é a maneira com que fazemos isso.

A gente gosta de agregar valor em tudo que vivemos.
Por isso encontramos alguém especial nos refrões das músicas ou nos tipos de comida. A gente faz isso propositalmente inconsciente. É bom demais falar “Nossa, fulano ama essa música! Sempre lembro!” ou “É o prato preferido de ciclano”. A gente gosta disso, não adianta querer mudar.

A lembrança há de ser uma lição e não uma prisão.

E mesmo que a lembrança tenha peso de saudade, não é algo a que devemos ser refém. É uma questão de valorizar o tempo: o tempo que a gente perde revivendo uma lembrança dolorosa a gente ganha indo atrás de momentos novos pra viver.

Somos uma mistura de lembrança, saudade e esperança.

Tem dias que uma parte fala mais alto que a outra, igual os dias que fazem mais sol que outros. Não há receita, há adaptação. Vamos lidando dia após dia com esse jeito maluco que todos temos de ser. E é exatamente dentro de cada aparente insuportável dificuldade que mora a nossa força de superar.

Ninguém vai te esquecer do jeito que você pensa e nem você nunca vai esquecer de alguém do jeito que espera. São os dias que fazem a gente, e dentro deles, são os momentos que fazem o que somos.
Até que ponto vale a pena desejar a vingança do tempo?
Até que ponto vale emplacar o discurso de “Você vai sentir minha falta e vai ser arrepender por tudo que me fez!”. Até que ponto? Voltamos ao tempo: a força que a gente deseja essas coisas pode ser tão melhor aproveitada desejando coisas boas pra nós mesmos. Talvez seja hora de virar o disco.

Essa pessoa aí que você está lembrando não te esqueceu como você pensa que esqueceu. Ela te encontra nas cenas dos filmes e nas pizzas do fim de semana. Ela também te vê sem querer ao conhecer novas pessoas com o mesmo nome que o seu. Essa pessoa te encontra ao sentir o seu perfume em um metrô qualquer. Essa pessoa te encontra nas ruas que passaram juntos; te encontra nas coisas que você não gostava e que outras gostam; te encontra nas piadas que faziam das outras pessoas e que agora não tem mais com quem fazer. Essa pessoa nunca vai te esquecer, mas não espere que ela te diga isso. E na verdade, até que ponto vale a pena que essa pessoa te diga isso?
Talvez seja melhor aceitar que não existe mais nada, mas tudo que existiu é algo que nunca vai ser esquecido.

É que a gente gosta mesmo de justificativas e não de respeito.

A gente gosta de questionar o por quê ao invés de parar e aceitar: “é assim ué”. E não se trata de acomodação, se trata de uma busca maldita por algum tipo de conforto, por algum motivo que justifique a dor, uma busca por qualquer razão, qualquer diabo de razão que possa nos tranquilizar e fazer voltar nossas noites de sono. Mas por quê?
A gente quer mesmo é que aquela pessoa ali em cima – aquela que já pontuamos que nunca vai te esquecer – peça pra voltar. E não só isso: que peça pra voltar de joelhos. A gente quer estar por cima sempre. E não adianta dizer que “não é bem isso, só quero que a gente volte” pois no fundo há uma ferida aberta por essa pessoa.

Aceitar não é submeter, é deixar viver.

Às vezes é melhor acontecer uma coisa mais uma vez pela primeira vez do que acontecer a mesma coisa outra vez por simplesmente acontecer.
Em outras palavras: às vezes é melhor ter aquele sentimento bom pela primeira vez por alguém novo, do que desejar que alguém do passado volte pra reviver um velho sentimento.
Claro, há exceções. Tem momentos que voltam, tem pessoas que voltam, e isso tudo acontece pra gente aprender a considerar TUDO nessa vida, ao invés de pensar que: “não, isso nunca pode acontecer”. Mas às vezes, insisto, vale mais a pena a gente aproveitar o tempo querendo novidades do que a volta no tempo.

É excitante ver a vida recomeçando.

Você também nunca vai esquecer essa pessoa.
Não adianta viver os fins de semanas sob efeito de alcoól pelas baladas na sua cidade, você nunca vai esquecer. Você vai se ver mesmo sem querer, cantando aqueles refrões que cantavam juntos. Você vai encontrar essa pessoa nos programas preferidos que ela dizia; você vai encontrar na ausência da companhia nos fins de semana no parque; você vai encontrar essa pessoa na saudade de uma opinião sobre qual roupa vestir essa noite.

Portanto, toda essa lembrança, toda essa saudade, todo esse sentimento já vivido, vão morar na sua vida e na vida de quem já viveu com você. E como lidar?
O mesmo tempo que dilacera é o que ajuda. Os dias vão passar, outros filmes vão ser lançados, outros pratos serão provados, outros perfumes serão comprados, outros planos serão feitos, outros sorvetes serão tomados, outras risadas serão ouvidas, outros conchinhas serão compartilhadas, outros motivos serão encontrados, outros refrões serão cantados, outros momentos serão vividos. Mas sempre e pra sempre seremos nós mesmos; sempre seremos aquela pessoa que viveu aquele tempo bom e que traz saudade. E essa pessoa, essa aí da sua cabeça, sempre vai ser aquela pessoa que viveu aquele tempo bom e que traz saudade.

A gente nunca vai se esquecer, a gente vai se guardar.

CURTA: http://www.facebook.com/umtravesseiroparadois <3

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2 respostas em “A Gente Nunca Vai Se Esquecer

  1. eu simplesmente amei este texto! Me emocionou e mto!
    Foi mto lê-lo e refletir a partir dele.
    Passei a ser fã número 1 do Blog!
    Parabéns e obrigada pelos inúmeros textos que me fizeram refletir sobre tantos momentos tão meus!
    Bjs

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