Aquele negócio no pé do ouvido

Leia ouvindo:

Você não para.
Se eu fosse contar todas as vezes em que fica se mexendo eu não conseguiria dormir.
Mas isso não é uma reclamação, é uma constatação.
É melhor te ter inquieta do que nem te ter. E te ter significa me ter também.
Mas que é uma verdade que você não para, ah, isso é. Você parece que sonha estar caindo de algum lugar.
Tem horas que enrosca a perna por entre as minhas,
tem outras que prefere se encolher inteirinha.
Tem também as vezes em que pega o edredom todo só pra você.
E apesar de me ouvir espirrar, nem liga pro frio que me faz passar.
Quando coloco uma mão embaixo do travesseiro geladinho pra relaxar,
você parece fazer de propósito e indica que quer que eu te abrace,
puxa meu braço por cima de você e leva minha mão até embaixo do seu rosto.
E como eu posso negar?
Só acho engraçado que quando mostro que eu também quero,
você se faz de desentendida e não se toca nem que o teto caia.
Cheia dos caprichos, ainda tô sabendo como lidar.
Aí no meio da noite coloca os pés gelados sobre a minha perna quentinha,
me dá uma agonia, uma tremedeira impossível de disfarçar,
mas você se encolhe e nem sai do lugar.
Tem vezes também que percebo que você fica em dúvida sobre quem é o colchão.
Tipo, do nada sinto minhas pernas pesarem e quando reparo são as suas
em cima das minhas como se fossem a coisa mais leve – não que sejam pesadas –
do mundo.
Agora, vou eu tentar fazer o mesmo com você?
Uma chance pra você me cotovelar até me ouvir cair no chão.
Mas nem tudo é essa folga que estou comentando não.
Pois você sabe muito bem quando a gente se encaixa e reconhece muito bem
o meu recado ao segurar no seu quadril assim como quem não quer nada.
E sabe o que é o pior? Você judia de mim.
Se mexe devagar, toda cheia de manha e se esfrega como se falasse:
“Eu sei o que você quer, seu besta, mas você vai ter que conquistar!”
Faz isso só pra ter o prazer em dificultar e em ver o quanto posso me esforçar.
E tem gente que ainda chama isso de charme, eu chamo de judiação.
Mas quando eu quero, você conhece, e talvez por isso provoque tanto,
quando eu quero, eu faço o impossível até conseguir.
Aí com você de costas pra mim coloco uma mão por dentro da sua blusinha pela frente.
Deixo a mão um tempo ali como se eu também não soubesse do que está acontecendo.
Faço círculos devagar, esfrego o dedo na barriga pra lá e pra cá,
e continuo até a sua palpitação aumentar.
Subo a mão em direção ao seu pescoço mas paro num lugar melhor no caminho.
Não faço ideia do porque, mas ali tem um espacinho que a minha mão gosta de ficar.
Aí desço essa mesma mão um pouco pra sua cintura e ali é que eu gosto de me divertir.
Abaixo e levanto sua calcinha devagar.
É um movimento que se repete algumas vezes, variando de velocidade.
E tudo isso é o que consigo fazer com uma mão só.
Só que você também é cheia de jeito.
Nas poucas vezes em que quem está de costas sou eu, você sabe como atiçar.
Solta a sua mão da minha e vai descendo pela minha barriga.
O problema é que eu não consigo evitar de mostrar que já gostei da ideia.
E o que você faz é só fingir que não percebe e começa e menosprezar.
Coloca a mão dentro da minha cueca sem precisar tocar lá e fica ali um tempinho
até voltar pra minha mão perto do meu rosto e eu me virar pra você de novo.
Você não para.
E eu não quero que você pare.
Me faz bem ter a sua companhia e vou fazer tudo para que continue gostando também da minha, assim como gostamos do jeito que a gente dorme de conchinha.

dormir

 

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4 respostas em “Aquele negócio no pé do ouvido

  1. Márcio, to fissurado no seu blog!!!
    Tem coisas que você escreve que parece minha vida, me sinto em casa quando estou por aqui!
    Me diz, como faço pra comprar seu livro?
    Continue com esse ótimo trabalho!
    Abraço!

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