Descasca o esmalte das unhas devagar

Você acorda já vendo se tem notificações no celular. Acorda já apertando o meio da pasta de dente. Acorda conferindo se faz frio ou calor.
Se olha no espelho, faz cara feia pro cabelo e quando não é dia de lavá-lo, coloca uma touca pra proteger. Entra no chuveiro, liga e mede a temperatura da água um dia com o pé, outro com a mão. Sai, se enrola na toalha e corre pro quarto. Às vezes já sabe o que vestir, às vezes sente o corpo secar só por não decidir.

Vai até a cozinha e pensa em algo leve pra comer.
Liga a TV, vê as notícias da manhã, confirma a previsão do tempo.
Confere a bolsa, confere todo o mar de coisas que leva nessa bolsa, muito à se prevenir, pouco à se utilizar. Esquece do perfume. Escolhe o perfume. Uma borrifada em cada lado do pescoço e em cada pulso.

Sai de casa pra esperar o ônibus chegar.
Já de fones de ouvido e óculos de sol, abre o instagram e vê fotos pra inspirar.
O ônibus chega, você entra e procura banco pra sentar. Quando encontra já é um motivo pra comemorar; quando não, não tem problema também, às vezes tem gente que te ajuda com a bolsa; às vezes não. Tudo bem também.
O mesmo acontece se pega metrô ou trem.

Chega no trabalho, pausa a música e distribui alguns “bom dia”.
No almoço prefere tenta continuar comendo algo leve, mas na sexta-feira você se permite relaxar.
Prende o cabelo, não foi dia de lavá-lo.
Com uma das mãos acomoda a maioria dos fios, com a outra pega um elástico para segurar. Uma última puxada com uma mão para cada lado e é criado um rabo de cavalo para te ajudar.

Volta do almoço, segundo turno de trabalho.
Às vezes tem um vídeo engraçado pra assistir, às vezes não.
Às vezes tem mil notificações no celular, às vezes só a lembrança de alguma conta pra pagar. Às vezes os dois.

Acaba o expediente, hora de ir pra casa.
Na volta lembra do livro que tenta terminar.
Fones de ouvido, livro e ninguém pra incomodar. O mundo pode até cair e você não vai se importar.
Cansada, deseja a hora de chegar em casa e os amigos não param de falar no celular. Responde uma outra conversa, digita um outro “hahaha” sem ter dado 1 sorriso sequer.

Chega em casa, outro banho pra relaxar.
Tem dias que prefere lavar o cabelo a noite e secá-lo antes de dormir; tem outros que prefere não lavar; tem outros dias que lava e deixa o tempo secar.
Já de pijama, conversa com a família – nem que seja pelo celular, nem sempre tem algum assunto muito relevante pra comentar. No celular, confere as outras conversas que deixou de opinar. Ainda entra rapidinho no Facebook, ou no chat pra se atualizar.
Curte um ou outro post, ouve uma outra música, posta um ou outro clipe e escolhe desconectar.

Deita no sofá; um seriado pra se distrair.
Vai mergulhando nas horas da noite e quando se dá conta vê que passou da hora de dormir.
Vai até a cama, senta de um lado e retira os chinelos.
Chega a pensar se vale a pena escolher alguma roupa desde já, às vezes escolhe, às vezes não.
Dá uma última conferida no celular, confere se o despertador vai te acordar.
Descobre parte da cama coberta pelo edredom. Deita devagar.
Se encolhe pra se aquecer; agora a Terra pode parar de girar.
E se desliga do mundo, entra em mais um sonho até um novo dia nascer e você acordar vendo novas notificações no celular.

No meio tempo entre tudo isso, esbanja um sorriso aqui e outro ali, conversa no telefone, manda um “<3” gentil no fim de algum e-mail. Tira e coloca o óculos quando lembra de usar. Promete um regime novo com uma barrinha de cereal pra começar. Digita um “Ai amiga, a gente precisa conversar”. A cabeça voa sem sair do lugar. Lambe os lábios e às vezes se enfurece por ter esquecido a manteiga de cacau. Pesquisa novos cortes de cabelo. Reclama com o pessoal do trabalho que não tem mais roupa pra usar. Planeja comprar um novo creme para rejuvenescer. Entra numas ideias de suco verde pra desintoxicar. Descasca o esmalte das unhas e lembra que é preciso marcar manicure. E talvez pedicure. Depilação com certeza!

No meio tempo tudo isso existe alguém que te espera se você encontrar um tempo para enxergar.

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Em Dezembro de 2013 lancei o primeiro livro desse blog: “Um Travesseiro Para Dois”
Você pode comprar seu exemplar – e conferir fotos do lançamento – na fanpage do
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4 respostas em “Descasca o esmalte das unhas devagar

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